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Saiba como é viajar de avião em tempos de coronavírus

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Escrito por Alan Lemos
Precisei fazer uma viagem inadiável de trabalho de Belém a Chapecó, no Oeste Catarinense, durante a pandemia. Em três dias peguei seis voos: Belém-Campinas-Florianópolis-Chapecó e Chapecó-Florianópolis-Guarulhos-Belém. Confinado desde março e saindo de casa só uma vez por semana, para fazer supermercado, dividir um meio de transporte coletivo com quase 200 pessoas em cada trecho não me parecia nada bom.
Como é viajar de avião em tempos de coronavírus
Apesar de muitos Estados terem proibido o transporte interestadual de ônibus de passageiros e permitido apenas cargas, o transporte aéreo de passageiros está liberado e em nenhum momento pediram para apresentar documento extra, carteira de vacinação ou apresentar justificativa do motivo da viagem. Assim, viajar ou não se tornou algo de decisão de cada pessoa.
Recomendações da Prefeitura de Chapecó

Panela de pressão

Apesar de parecer uma panela de pressão na qual passaremos horas a poucos centímetros de pessoas potencialmente contaminadas, algumas coisas me deram um alento: antes da viagem pesquisei bastante e vi algumas informações relevantes: as aeronaves usam um filtro especial de ar¹; há um fluxo de renovação de ar que começa no início da aeronave²; todos são obrigados a usar máscaras; um estudo³ diz que são bem pequenas as chances de o sistema de ar condicionado espalhar o vírus, conforme demonstram as imagens abaixo:
Riscos de viajar em tempos de pandemia
Riscos de viajar de avião em tempos de pandemia
Sem dar maiores detalhes, a Azul alega seu site (imagem abaixo) que, caso todos estejam usando máscaras, a chance de contrair a Covid-19 é de 1,5%. Possivelmente ela refere-se a algum voo de cerca 1:00h de duração, que é a média no Sul-Sudeste brasileiro.
Fonte: Azul Linhas Aéreas
Outro alento é que é necessário ter acesso a um determinado patamar de vírus para contaminar-se: algo como cinco minutos de diálogo com um infectado ou uma tossida, onde nenhuma das duas pessoas use máscaras?. Munido dessas informações, tive um pouco mais de coragem.

Cuidados

Usei máscara PFF-2, que é considerada ideal para o coronavírus, por impedir o acesso de 94% das partículas; uma viseira (chamada de face shield); luvas; e spray de álcool gel no bolso. Nos seis voos só vi mais uma pessoa com viseira, então me senti mais ou menos como alguém que usava máscara em uma época que ninguém usava. Vale ressaltar que não é permitido levar álcool líquido: apenas a sua versão gel — por ser bem menos inflamável. As luvas por si só não fazem diferença: a questão é que elas lembram de não tocar mucosas (e facilitar na hora de lavar as mãos, quando chegar ao hotel ou residência).

Medida Provisória

Graças à MP 925/2020, o cancelamento e remarcação de passagens aéreas está bem mais tranquilo: até próximo do voo (coisa de 1:30h) é possível entrar em contato com a companhia aérea e pedir o cancelamento do bilhete. Nenhuma multa é cobrada e duas alternativas são apresentadas à pessoa: o reembolso, a ocorrer em até doze meses, ou o crédito na mesma empresa, de imediato: tanto em dinheiro como em milhas. Desta maneira, em caso de dúvida, tornou-se viável comprar uma passagem hoje e até a data da viagem pensar se quer usar.
Apesar de não estar escrito na MP, as companhias também estão mais flexíveis para fazer alteração de data: antecipar um voo em alguns dias não está difícil. Alterar origem/destino e até mesmo voar em empresa diversa do bilhete também são possíveis, mas bem mais difíceis. Agora com o codeshare entre Latam e Azul, mais possível ainda.

Horários próximos

As companhias estão colocando em horários próximos os voos com mesmos destino e origem: creio que seja para facilitar a fusão de voos caso o volume de passageiros seja pequeno. Em março muitos voos de diferentes cias foram unidos.

Voos lotados

Infelizmente o que vi foram voos lotados, as operadoras não fazem o bloqueio do assento do meio e as pessoas viajam da mesma maneira como sempre. Vira e mexe é possível ver alguém deixando o nariz para fora e até uma pessoa sem máscara. De todos esses voos, o que mais tinha gente sem o devido respeito às regras era o GRU-BEL. Em três deles felizmente consegui ir sozinho na carreira de três assentos, mas não é comum.

Conexões muito longas

Como o fluxo está bem reduzido, as opções de conexão estão parcas. Precisei, por exemplo, fazer uma conexão de 12 horas em Florianópolis, outra de 17 horas também em Florianópolis e outra de 24 horas (!) em Guarulhos. A título de ilustração, a Smiles oferece em seu site trajeto de Belém a São Luís, cuja duração é de 1h, opções com quase 40 horas de duração: com direito a verdadeiros stopovers em Brasília e São Paulo de um dia cada.
Para reduzir esse e outros problemas, creio que as aéreas poderiam fazer duas coisas: a primeira é tentar trabalhar mais como um pool de empresas, ou seja, mais ou menos como uma empresa única, tentando oferecer horários mais variados; a segunda é espelhar-se um pouco mais na década de 1990, que tinha muitos voos de escalas: tentar fazer voos com pelo menos uma escala, “unindo” rotas próximas.

Desembarque

Apesar dos pedidos em todos os voos de evitar aglomeração, em apenas dois vi atitude real: em um deles a tripulação foi liberando de cinco em cinco fileiras, apenas pelo comando de voz, o que não impediu que o restante ficasse em pé; e no outro foi bem mais rígido: só haveria desembarque se todos ficassem sentados e foi sendo liberada apenas de uma em uma fileira — para garantir a execução, o comissário de voo usou o próprio corpo para bloquear a passagem dos não-autorizados, inclusive abrindo os braços de modo a bloquear os compartimentos superiores e movendo-se para o fundo da aeronave a cada fileira evacuada. Eu estava em uma das últimas e, realmente, o desembarque demorou, contudo, o distanciamento foi real.

Checagem de temperatura

Guarulhos: só no embarque
Belém: só no desembarque
Florianópolis e Chapecó: só no desembarque
Em Florianópolis estamos enfrentando quase que uma imigração dos Estados Unidos hehe. Brincadeira. Todos os que chegam precisam preencher e assinar uma declaração se possuem ou não sintomas, dando seus dados pessoais e declarando o que vão fazer e seu endereço na cidade.

Hotel

Hotéis e locadoras de carro também estão funcionando: consegui reservar hotel e carro até mesmo no interior. Fiquei em hotel e AirBnb. O café-da-manhã no hotel foi diferente de tudo que já vi: dentro do horário convencional para esse serviço, o hóspede desce e dirige-se à entrada do restaurante: há uma mesa que serve duplamente de balcão e de impedimento de entrada: ali o hóspede pede sua bandeja ao (à) funcionário (a), que lhe é entregue pronta. A refeição é feita no quarto e, ao final, pede-se que deixe a bandeja ao lado da porta de seu quarto.
Refeição em hotel em tempos de Coronavírus

Válvula

Por favor, nunca use máscaras com válvula, não só em viagens, mas em qualquer situação, porque elas filtram o ar que vai para você, mas liberam sem qualquer filtragem o ar que é devolvido ao ambiente. Se estiver infectado, infectará quem estiver em volta. O ideal é a sem válvula, porque filtra dos dois sentidos. No último trecho, GRU-BEL, vi algumas pessoas com esse modelo e inclusive pedi para trocar de assento por ter calhado de ficar ao lado de uma pessoa com uma.
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Máscaras com válvula

Exame

Seis dias após meu retorno fiz exames de Covid-19 — tanto sorológico, de furar o dedo, como o PCR, com grande cotonete até o fundo do nariz — e ambos deram negativo. Duas semanas após a viagem, tudo perfeito com a saúde.

Nova malha aérea

Até fevereiro tudo estava normal na aviação brasileira: voei naquele mês, viajei e vi no máximo duas pessoas usando máscaras. Em março, caos e cancelamentos ocorreram e finalmente em abril a malha aérea foi toda repensada: a grosso modo, é como se os aviões em operação hoje estivessem fazendo só dois voos diários: um de manhã para o começo da tarde e outro de tarde para o começo da noite.
A organização está como uma estrela de muitas pontas: basicamente todos os destinos apontando para São Paulo: Latam e Gol estão fazendo ida-e-volta de Guarulhos para quase todas as suas cidades. A Azul está centralizada em Campinas, mas é quem está arriscando-se um pouco mais: também fazendo de Belo Horizonte e Recife seus pontos secundários de conexão, além de seguir operando algumas escalas.

Alternativas

Se eu pudesse aconselhar alguém, seria: tente usar carro, ainda que alugado, para fazer um trajeto curto ou completar um trecho de voo. Caso essa opção não seja possível, na hora de marcar os assentos eu escolheria alguma janela entre as primeiras fileiras, ainda que pagando pelo assento conforto. A Azul, por exemplo, permite no momento da compra marcação gratuita de assento logo após a asa (de graça por não reclinar).
Leve um borrifador, mas antes da viagem teste se o seu álcool em gel é bem borrifado por ele, porque, a depender do borrifador e da viscosidade do líquido, pode não borrifar, mas sim apenas expelir um fio unidirecional (arminha de água). Em carro alugado aplique álcool nos pontos de contato e circule de vidros baixos por um tempo.
Em hotéis aplique álcool em locais como maçanetas, controle remoto e até borrife nos travesseiros e lençóis. Na volta, fique de máscara em casa e isolado da família, coma depois dos parentes: tudo isso por pelo menos uma semana, tempo necessário para fazer exames. E, por último: só viaje em caso de real necessidade. 🙂
¹ filtro Hepa:  chamado HEPA para filtrar o ar da cabine ( //www.youtube.com/watch?v=ixmU6QbonJ0 ), o mesmo usado em UTIs; 
² //www.youtube.com/watch?v=PuOdXPZZfSA
³ ( //www.ncbi.nlm.nih.gov/nuccore/MN938384 ) demonstra que o sistema de ar dos aviões teria uma capacidade irrisória de conduzir os vírus, alegando que o risco mesmo é sentar-se a até dois assentos de um infectado; 
4 patamar mínimo de vírus: 5 minutos conversando sem máscaras ( //www.leticiakawano.com/post/como-as-pessoas-est%C3%A3o-contraindo-a-covid19 )

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